20 noviembre 2008

Mais um DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA (na loura Blumenau!)

20 de Novembro, dia da Consciência Negra... (Onde? Não aqui, na loura e bela Blumenau...)
Ontem (19/11/2008) estive na Câmara Municipal de Blumenau (Sessão Solene) para prestigiar o meu caríssimo aluno JOSÉ ENDOENÇA MARTINS, que foi homenageado com a COMENDA MUNICIPAL DO MÉRITO ZUMBI DOS PALMARES, pelos relevantes serviços prestados no combate a qualquer tipo de discriminação ou preconceito, na defesa dos Princípios Fundamentais da Constituição da República Federativa do Brasil e na promoção da vida (segundo consta no convite).
E que emoção! Emoção ao ver um senhor de 82 anos (Sebastião Correia Filho), funcionário público aposentado, que ajudou a construir a Estrada de Ferro de Blumenau, mas que, irônicamente, mora hoje em um abrigo da cidade, pois não lhe restou sequer um teto (nem uma parede para poder exibir a placa que recebeu!) que lhe permita viver dignamente.
Chorei... Chorei ao ver tamanho abandono! Mas o que mais me entristeceu foi ver todas aquelas confortáveis cadeiras destinadas aos nossos vereadores VAZIAS! Apenas DOIS representantes do POVO compareceram à sessão e quero deixar registrado aqui o nome deles, pois, independente de partido, estas PESSOAS (seja lá pelo motivo que for) cumpriram o seu papel: Maria Emília de Souza e Vanderlei Paulo de Oliveira.
Cadê os outros 12 (DOZE)?!
Acho que, em momentos como este, deve-se esquecer a luta partidária e levantar uma mesma bandeira, pois há questões que vão muito além de partido. A meu ver DISCRIMINAÇÃO é uma delas.
SESSÃO SOLENE MARCA DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA. Uma Sessão Solene para a entrega da Comenda de Mérito Zumbi dos Palmares foi realizada na tarde de hoje na Câmara de Vereadores em comemoração ao Dia Nacional da Consciência Negra. A data de 20 de novembro foi escolhida por ser o dia da morte de Zumbi dos Palmares, o maior símbolo da resistência negra contra a escravidão. A honraria é entregue a personalidades que realizaram relevantes trabalhos no combate à discriminação racial. Na sessão desta quarta-feira, foram homenageados: a jornalista Magali Moser, o servidor público aposentado Sebastião Correia Filho, o escritor e professor José Endoença Martins e o médico Delson Morilo Langaro, todos por iniciativa da vereadora MARIA EMÍLIA DE SOUZA (PT).Também compareceu a sessão para prestar homenagem o presidente da Fundação Cultural de Blumenau, Ivo Hadlich. Ele saudou as personalidades honradas com a Comenda e destacou o trabalho de Magali Moser, em resgatar a história da cidade. Hadlich ainda lembrou que a discriminação não acontece somente para os negros, e lamentou que o Brasil tenha a necessidade de criar leis para proteger as minorias. Ivo declamou poema escrito por ele, intitulado "Tributo a Zumbi dos Palmares", o texto narra uma breve história do líder quilombola.Ao cumprimentar cada um dos homenageados a vereadora Maria Emília desejou que o tributo à Zumbi permanecesse na Câmara Municipal e destacou que dentro de alguns dias deve entrar no Legislativo o veto do Prefeito ao projeto de Lei, de sua autoria, que instituiria o feriado municipal do Dia da Consciência Negra. Ela agradeceu ao Movimento Cisne Negro por ter confiado nela e mencionou já ter sido bastante criticada pela proposta. "Amanhã mais de 300 municípios poderão fazer uma reflexão num feriado. Espero que a Casa derrube o veto e seja uma referência", assinalou.Maria Emília avaliou que os homenageados com esta Comenda deixaram claro serem aqueles que lutam por um Brasil mais justo e igualitário. "De alguma forma vocês nos tocaram e se nos tocaram, tocaram a cidade", falou. E ao entregar a honraria a Sebastião Correia Filho, argumentou que o servidor público aposentado de 82 anos, que mora em Blumenau há 60, contribuiu para construção da cidade e está abrigado e numa situação precária. "Este trabalhador, negro, pai, avô, bisavô, morador de Blumenau, que faz uma saudação a essa cidade loira e bela, ajudou a construir a estrada de ferro de Santa Catarina. Que não só essa Casa lhe faça esta homenagem, mas a cidade possa lhe fazer uma homenagem, lhe dê um lar", vaticinou.Emocionado com a homenagem, Sebastião, agradeceu e recordou ter ajudado a construir entre as obras do município, o prédio da Prefeitura. "É emoção chegar aqui e ser tão bem recebido, num lugar em que negros não podiam nem sentar perto dos brancos. Eu levantei isso daqui do nada", lembrou.O nome do professor José Endoença Martins também foi indicado pela vereadora Maria Emilia de Souza, mas quem falou do homenageado, foi o colega de bancada VANDERLEI PAULO DE OLIVEIRA (PT), cuja vida acompanha há muitos anos, conforme disse. "A cidade é hábil em descobrir o que as pessoas fazem, independente da cor ou raça", salientou Oliveira. O vereador lembrou que o momento serve para se viajar pela história do Brasil e da humanidade que não é muito bonita, mas que precisa ser contada para não precisarmos mais passar por ele. "E o povo brasileiro passa por um momento especial no reconhecimento àqueles que foram historicamente excluídos. Temos um presidente que é um trabalhador, que não fala inglês, que teve parte do corpo decepado pelo sistema, mas que conseguiu chegar ao coração de milhões de brasileiros", assinalou. Oliveira também comentou sobre a chega do Ministro Joaquim Barbosa ao STF, o primeiro negro a galgar aquele espaço. "Endoença e sua família são todos alemães de Blumenau, que vieram para Blumenau e construíram uma história que tínhamos que reconhecer no plenário desta Casa, pois aqui representamos simbolicamente o sentimento de mais de 300 mil habitantes", garantiu o parlamentar. "Espero que todos continuem nos ajudando a gritar por uma sociedade mais justa", finalizou. A sensibilidade poética de José Endoença Martins aflorou quando usou a tribuna. Para mostrar o que discute com seus alunos na vida acadêmica, apresentou trechos de grandes nomes da literatura e sugeriu reflexão a respeito. "Começo com a África porque a nossa vinda tem um significado especial. Não éramos negros na África, éramos africanos. Passamos a ser negros quando pisamos no Brasil, ou no Caribe ou Europa", observou. Citou a poetisa de Moçambique Márcia Santos: "Chora África minha, lava tua cara com as lágrimas que vertes e com elas rega os teus campos secos e limpa as tuas feridas. Chora África minha. Com as tuas lágrimas tua pele ficará lavada, teus campos reverdecerão, tuas feridas sararão. Chora África minha, tuas lágrimas serão a salvação do teu povo. Tuas lágrimas serão a água e a chuva que o povo tanto precisa. Chora África minha, porque eu sou África e eu também choro". O poema do escritor afro-americano Langston Hughes, que tem a ver com a vitória de Barak Obama, foi destacado em seguida: "Eu também canto a América. Sou o irmão negro. Me mandam comer na cozinha quando chega visita. Rio, como bem e cresço forte. Amanhã estarei à mesa quando vier visita. Ninguém vai me dizer - vai comer na cozinha! Além disso verão que fiquei bonito e se envergonharão. Eu também sou América". Ao declamar o poema de Solano Trindade, José Endoença reforçou que a luta de Zumbi deve continuar: "Zumbi morreu na guerra. Eterno ele será. Rei justo e companheiro, morreu para libertar. Zumbi morreu na guerra, eterno ele será. Se negro está lutando, Zumbi presente está. Herói cheio de glória, eterno ele será. À sombra da gameleira, a mais frondosa que há, seus olhos hoje são lua, sol, estrelas a brilhar. Seus braços são troncos de árvores, sua fala é vento, é chuva, é trovão, é rio, é mar". Por fim mostrou poema do grupo Quilomboje que vive no Rio e São Paulo, difundindo a proposta de fazer com que a poesia de afro-descentes tenha espaço e voz: "Seguir em frente. Em frente seguir. Sem receio ou temor. Resistir, re-existir. Um dia vai dar, vai ter que dar. Não importa quando, nem o preço que vai pagar. Derruba uma árvore, fica a semente, renasce, germina multiplicando seus frutos, que lentamente vai, sorrateiramente restituindo e dividindo a colheita com todos. Estamos vivos ainda". Os motivos para a indicação do médico Delson Morilo Langaro também foram apontados pelo vereador Vanderlei de Oliveira. Ele explicou que todas as homenagens foram aprovadas por unanimidade, pois apesar das divergências entre os parlamentares, eles não avaliam a linha ideológico-partidária do homenageado, e sim, a sua "linha ideológico-social" e a contribuição da pessoa pela cidade. Para o petista, a maior ajuda de Langaro, além de seu trabalho como professor da Furb foram os esclarecimentos feitos a respeito das doenças falciformes, que afetam principalmente as pessoas de pele negra.Além de agradecer à Maria Emília pela indicação, Delson Morilo Langaro comentou que não fez nada de especial para receber a Comenda, e sim, desempenhou o trabalho como médico e como pessoa. Ele acredita que a honraria aumenta a sua responsabilidade em ajudar não só os negros, mas representantes de todas as etnias. Langaro vê com otimismo a situação dos afro-descendentes: "Vivemos em um período em que temos muito mais a comemorar do que lembrar as tristezas. É uma época privilegiada, em que os negros são tratados de maneira igual". Para exemplificar, o médico comentou a eleição de Barak Obama, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. Para ele, o mérito não é dos negros, e sim dos brancos que "aprenderam que não se vê competência pela cor da pele". Pela coragem e pela sensibilidade a vereadora Maria Emília prestou homenagem também à jornalista Magali Moser. "A série de matérias 'Negra Blumenau', sobre a participação dos negros na construção da cidade foi uma das reportagens mais bonitas que eu li no Jornal de Santa Catarina. Que trouxe detalhes da cidade de forma muito corajosa", argumentou. A parlamentar mencionou alguns temas e fontes abordados na matéria pela repórter do 'Santa'. "Esta reportagem foi extremamente importante e marcou muito minha trajetória como cidadã", destacou. Magali relatou que receber a homenagem é mais que motivo de orgulho e satisfação, é responsabilidade de continuar defendendo o jornalismo acima dos interesses particulares. "As reportagens buscaram mostrar um novo olhar, desmistificar conceitos, quebrar paradigmas que a cidade carrega desde a fundação", destacou. Ela falou a respeito da trajetória da produção do trabalho que lhe rendeu a Comenda e lembrou que a matéria também deu origem a uma exposição fotográfica. "A exposição passou por vários espaços culturais da cidade com intenção de promover o debate público sobre o assunto", observou.O presidente do Movimento Cisne Negro Aldenor Santiago Cardoso, se mostrou feliz com a Comenda, mas ao mesmo tempo constrangido e triste com os vetos a projetos que beneficiariam a etnia. Um ao projeto que trata da anemia falciforme e outro ao feriado do Dia da Consciência Negra. Ele fez um resgate histórico e disse que a vinda dos europeus para o solo brasileiro tinha outros objetivos: "Eram racistas e discriminatórios, porque na época através do processo evolucionista, não consideravam os negros humanos, e na linha do tempo, estavam até abaixo dos índios. Diziam que não tinham nenhum processo intelectual, apenas a força para executar algumas tarefas. Esta é a história que muitos livros didáticos não contam, ou seja, que a vinda dos europeus era para branquear o Brasil. A própria vinda do povo germânico para Blumenau tinha este propósito", assegurou. Por fim, Aldenor Santiago, pregou que "a cidade que se diz loira, podia dar um exemplo para o Brasil e para o mundo, derrubando o veto do prefeito e decretando o feriado do dia 20 de novembro. Seria uma homenagem bonita a etnia, não pelo próprio feriado, mas para permitir um momento para se manifestar e aumentar a sua auto- estima". Assessoria de ImprensaCâmara Municipal de Blumenau

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